quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Virando a página

Eu sempre senti uma confiança, previsão, ou quem sabe só esperança, de que um dia eu iria escrever. Apenas nos sonhos me vislumbrava rodeada de gatos, com uma fumegante caneca de café do lado, escrevendo naquelas máquinas de escrever charmosas e tão “vintage”, enquanto uma chuva tranquila caía durante uma tarde de outubro. Apenas nos sonhos. Quando eu realmente parava para pensar sobre o assunto, não havia gatos, a máquina de escrever era um modesto computador e, ao invés de chuva, havia um sol escaldante que obrigava um ventilador cansado a trabalhar incessantemente. Bom, pelo menos o café estava lá, disso não abro mão.
A realidade mudava a perspectiva porque eu somava todas as circunstâncias positivas e negativas para escrever. Eu sempre soube que dependeria de inspiração, e esta vem e vai de forma bem frequente. Sabia que precisaria de muita dedicação e tempo, e que, com a vida que escolhi ter, provavelmente, eu nunca conseguiria “parar para escrever”, o que me exigiria planejamento e adequação para conciliar as duas coisas. Claro, os custos de publicação (pois a maioria dos autores não se satisfaz sem mostrar seus escritos ao mundo) se constituíam o grande problema, destacado com a luz amarela ao longe, sobre um pedestal cercado de fumaça cinematográfica. E quem dera fosse só isso. E se ninguém gostasse? E se as minhas frases mais parecessem delírios? E se eu me propusesse a fazer algo que não conseguiria terminar? Como resolver essas questões inquietantes? De bom eu conseguia imaginar um livro terminado, quem sabe uma reedição naquelas capas lindas, um sorriso de contentamento, ideias e ideias, eu escrevendo sem parar e feliz.
Passei vários anos considerando tão pequenas as minhas boas chances, os aspectos positivos da minha empreitada adormecida. E eu fiquei cansada. Não sei o que vai acontecer, mas decidi começar a escrever. O blog já existia há alguns anos, sem muita movimentação, pois eu tinha dificuldade de decidir que direção dar aos textos. Além disso, a grande exigência que classificava os textos em medíocres e nunca prontos para divulgação. Não sei se é o ar de ano novo do início deste ano, mas senti vontade de começar a escrever de verdade, sem me importar se vou poder publicar ou não, se vou conseguir continuar. Isso fica para amanhã, hoje quero começar, eu quero escrever.
Não defini um tema específico, ou um estilo, quem sabe até se não aparece uma poesia vez ou outra? Acho que sou um rascunho de escritora, e ainda não tenho maturidade autoral suficiente para estipular com tanta certeza sobre o que vou me debruçar para escrever. Vou deixar que, aos poucos eu consiga encontrar meus pontos certos na escrita. Pelo menos já sei que ela acontecerá, preferencialmente, durante a noite, por isso o nome do blog. Parece que, para mim, é quando as coisas funcionam. Meu cérebro fica alerta, o silêncio coordena os passos, eu fico em sintonia com as ideias fervilhantes. Parece que é quando eu consigo ouvir melhor o que a minha mente quer dizer.
Enfim, eu me propus este desafio, sem pretensões maiores. É mais como uma coerente atitude em razão da confiança, previsão ou esperança que sempre tive de me transformar em alguém que escreve com frequência, sem rasgar ou guardar seus escritos, como eu sempre fiz. E quando for possível, escrita nova no blog.


Este post foi escrito enquanto eu ouvia “Turn the page” do Metallica.

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